Publicado por: diegosbb | Julho 5, 2008

Fazer o mundo durar vinte minutos

O passado está sempre nos rondando, nos mínimos detalhes. Enrosca-se  nos pensamentos, mesmo naqueles que parecem não se preocupar com ele. O futuro também está sempre por trás de nossos menores projetos e acompanha nossas mais ínfimas previsões.
O que aconteceria se tentássemos  – mesmo ilusoriamente – desfazer essas terríveis restrições? Imaginemos, dentro do possível, que o passado nunca aconteceu e que o futuro não existe. Vamos tentar acreditar que esse mundo, do jeito que é, dura apenas vinte minutos. Foi constituído de uma só vez, nesse exato momento, do modo como é incluindo nós mesmos. Há um minuto ele não existia. Tudo que o mundo contém no momento, tais como vestígios, ruínas antigas, bibliotecas, monumentos, arquivos, recordações recentes ou antigas, tudo isso acabou de surgir, tudo ao mesmo tempo. Os arquivos ainda estão lá, os testemunhos também, mas o passado do qual falam jamais existiu a não ser nesse momento.
 Esse mundo –infinito, diverso, múltiplo- tem duração limitada de aproximadamente 20 minutos. Depois disso ele desaparecerá totalmente e para sempre. Não haverá destruição gigantesca nem uma explosão cósmica. Não haverá chamas alucinadas nem imensos incêndios, não haverá uma extinção brusca. Será como o desfazer de uma bolha de sabão, como o súbito apagar de uma luz.
Instale-se nesse mundo de vinte minutos. Veja como é, de certo modo, idêntico ao nosso: tem os mesmos volumes e os mesmos céus. Nenhum objeto é diferente. As mesmas pessoas fazem as mesmas coisas. Mas repare, entretanto, que não é o mesmo universo. Esse mundo ao qual faltam a profundidade de um passado real e a perspectiva de um futuro imaginável pode parecer idêntico, mas é radicalmente diferente do nosso por causa desse limite temporal. Antes que esse universo efêmero desapareça completamente, você, que tem a ilusão de que outra realidade existiu e existirá, deve se esforçar para compreender o quanto o seu pensamento é diferente dessa existência medida em minutos. Quanto mais você sentir esse afastamento e essa distancia, mais poderá sentir a importância, para nós, do imemorial e do horizonte do futuro.
Ao se aproximar do final fatídico dos 20 minutos, você deverá sentir o terror surdo de que tudo irá, efetivamente, desaparecer.
É provável que não seja nada. Você poderá sair, no vigésimo primeiro minuto, desse medo sem motivo. Você se esforçará, então, para saborear o prazer de ver que o mundo continua.
Talvez você sinta, em seguida, uma espécie de gosto amargo, a decepção secreta porque nada foi destruído. Mau jogador…


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