
De repente, a escuridão. Pode ser uma pane elétrica, um despertar súbito ou a preocupação em não acordar os que dormem…não importa a razão. Você anda no escuro, de preferência de forma inesperada. Não tm nenhum ponto de referencia dos seus trajetos, obstáculos e distancias. A experiência consiste em atravessar, usando apenas sua memória e na escuridão mais completa, um cômodo muito familiar, seu próprio quarto ou sua sala. O interessante é experimentar as rupturas da su certeza. Seu tato diz que você não sabe mais se orientar em um cenário habitual, que já foi percorrido milhares de vezes. Quantos passos do quarto até a porta? Não há nada entre eles ou você está se esquecendo de alguma coisa, uma mesa, um pacote no chão? Onde está o “braço” o sofá? A quina da cama? Esses lugares, antes tranqüilizadores, se enchem de pontos de interrogação.
Os gestos mais simples ficam repletos de riscos, chocam-se com uma brusca multidão de perplexidades e você não sabe mais exatamente como calcular. O que você pensava que sabia, na claridade, aqui revela-se incerto. Tudo é incerteza. Você estende o braço pensando que tocará em algo, que tocará na parede, que sentirá o batente da porta…nada. Continua tateando no vazio. Você foi invadido, de imediato, sem que possa ter se dado conta disso, pela estupidez da ignorância. O escuro o tornou idiota, deixou sua mente opaca, transtornou suas referencias. Você bate, de repente, no canto da cômoda. Não sabia que ela estava lá. Errou, não está onde pensava estar. O móvel surgiu do nada e bateu em você com força, na quina, na altura da coxa, naquele lugar onde dói.Putz…
A falta de luz atrapalha todos os seus cálculos, desorganiza seus contornos. Não dá para agir, a não ser em pequenos solavancos, movendo-se com minúsculas sacudidelas. Você tem poucas opções. Toda a realidade conhecida está no seu lugar, em ordem. Nada mudou, nem as coisas nem suas relações recíprocas, mas elas se tornaram incompreensíveis, distantes vagamente ameaçadoras.
No escuro, o mundo deixou de ser “o mesmo” que era quando iluminado. A experiência consiste em entender que ele muda completamente de acordo com o que é visível ou não.
Isso que nós chamamos de “o mundo”, “ a realidade”, “a vida normal”, encontra-se em uma camada fina, facilmente perturbável.
Publicado por: diegosbb | Julho 5, 2008
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