Publicado por: diegosbb | Setembro 2, 2008

Paisagens imutáveis

         
           Não se trata de nostalgia. É uma certa ternura, talvez uma espécie de curiosidade mais melancólica. Provoca o desejo de saber onde procurar paisagens que sejam hoje idênticas ao que eram há milhares de anos. Será que existem lugares que não mudaram? Lugares sem marcas da ação do homem?
           Qual a floresta que permaneceu a mesma? Que lugar, campo, colina, poderá oferecer ainda um “rosto” imóvel? Ou ainda, qual montanha? Você começa a procurar. Tenta algumas abordagens. Faz aproximações, busca no escuro, mas resta sempre uma dúvida. Será que a agricultura não modificou muita coisa? Será que a grosso modo, permaneceu igual à que um homem da Idade da Pedra contemplou, mas não tem certeza e fica desapontado.
           A solução,entretanto, não é complicada. Entre no mar e nade até não ver a costa. Repare que tudo está igual. A idêntica extensão da água continua e isso ao longo de séculos. O que você vê é o mesmo que os dinossauros contemplaram. O mar representa quase dois terços do globo, ou seja, a maior parte da terra ficou inalterada. Paralelamente às devastações, às alterações, às humanizações, a maior parte do planeta conservou praticamente a mesma aparência, úmida e azul, a perder de vista.
          Tire a conclusão que quiser. Pense que é um tema surpreendente, uma evidência tranqüilizadora ou uma desilusão. A espuma permanecerá…

Publicado por: diegosbb | Agosto 7, 2008

Provocar em si mesmo uma dor

            Você está entediado. Um espetáculo que não termina nunca, uma sala de espera, a aula sem graça ou um chamado que não vem. Você não sabe o que fazer, hesita. O mundo flutua em uma espécie de bruma. Você sente que está se tornando inconsistente, como se sua substancia começasse a perder seus contornos, a se desfazer vagamente à sua volta. Pode ser que você se torne cada vez mais vaporoso, distanciado. Você não sabe mais exatamente quem é nem onde está. O tédio começou a dissolvê-lo. Então, belisque-se com força, intensamente, em um lugar que doa. Na parte interna do braço, por exemplo, ou no pescoço. A dor provocada deve ser breve, porém intensa, suficiente para provocar um grito que você deverá eventualmente conter.
            Para frustrar suas defesas, seja rápido. Não dê a você mesmo tempo de esperar pela dor nem de se preparar para ela. Seja brusco. Tente se possível pegar você mesmo de surpresa. Faço o máximo para se duplicar, para não ver você chegar. A dor deve chegar como um acaso, um acidente, um encontro brusco. Deve dissolver-se em você, parecer fulgurante no torpor. Se a violência for suficiente, o efeito é garantido: você encontrará o real, seu corpo lhe será devolvido, você saberá onde está, o efeito de bruma se dissipará, você sairá do tédio, chegará ao mundo.
           Há, então, uma pergunta na qual você deve pensar: Por que o sofrimento pode dar acesso à realidade? Será um simples efeito de recordação? Um contraste brusco? Ou será que criamos, ao longo dos milênios, tal maneira de viver que a dor se tornou o primeiro indício do mundo?
Essa é uma pergunta lancinante…

Publicado por: diegosbb | Agosto 7, 2008

Andar à toa pelo sebo (caçadores de tesouro)

                                             

 Acontece por acaso. Você tem um tempo livre, inesperadamente, entre duas reuniões ou porque os meios de transporte estão em greve – uma suposição -, ou, simplesmente, porque estava à toa. Mas não pode ser nada premeditado. Quando se dá conta, percebe que está em um sebo. Não importa a cidade ou o país nem mesmo se é uma livraria especial, o importante é que está cercado de livros.
              Você passa de uma seção a outra, e de repente se sente atraído pelos títulos, autores, personagens, como se cada livro estivesse lhe chamando, querendo atirar-se sobre você. Você adivinha, por detrás de cada capa, como por detrás das janelas fechadas e de cortinas corridas, vidas inteiras, almas. Em cada volume há destinos que lhe esperam. Pequenos destinos, fatalidades. Pouco importa. Se você viajar na história será levado, por muito tempo, para muito longe. Mas a coisa é difícil. Entre milhares de volumes, quais deles escolher? Você percebe cada vez mais próximo, o sussurro desses livros que lhe convidam. “Não quer me ler, caro leitor?”, “chegue mais perto, não vai se arrepender…”, “se me escolher, não conseguirá parar de ler!”, “eu quero você! Pegue-me, pegue-me!”. Enfim, você passa rápido e de um sussurro a outro ouve vozes baixas, sente o hálito morno dos textos que se oferecem.
               E então percebe o seguinte: a literatura é “prostituição”, pelo menos em um sentido. Cada história impressa é uma prostituta que tenta se destacar, captar o espírito que passa prolongar-se em uma atenção recebida. O conjunto das artes é também assim: as obras sussurram todas as obscenidades com voz baixa, e o olhar passa, deslizando, de uma para outra.
               Finalmente, você acabará vendo as livrarias como “bordéis”, a exposição como uma “orgia” e a cultura também. Mesmo quando consegue se libertar, os apelos continuam, e você sente pelos artistas uma profunda compaixão

Publicado por: diegosbb | Agosto 7, 2008

Deixar o telefone fora do gancho

           Você gosta que seus amigos lhe telefonem, que seus parentes possam falar com você, que seus clientes solicitem seus serviços ou que seus amigos se comuniquem com você. Somos todos parecidos nesse sentido, mas ficamos também irritados com a intrusão do telefone, sua irrupção inesperada a qualquer momento, com o modo como interrompe qualquer atividade e estraga qualquer conversa ou meditação.
           Experimente deixar o telefone fora do gancho. Desligue o celular, tire a tomada da parede, tenha certeza de que ninguém vai telefonar. Fique assim o tempo que for necessário. Não use rápido demais essa calma garantida. Antes de mergulhar no trabalho descanse um momento para gozar da sensação que experimenta por saber que o telefone está fora do gancho.
           Às vezes é uma verdadeira satisfação: você está enfim fora de alcance, tranqüilo, livre para fazer o que quiser sem ser interrompido. Mas, por outro lado, pode tornar-se uma inquietação: e se houver uma emergência? Um incidente grave? Um acidente? Outras vezes você se sente culpado: as pessoas que querem falar com você nem poderão deixar um recado, simplesmente porque você prefere ficar confortável e não encarar suas exigências. Será que isso é correto?
          Depois, um tipo de revolta, a intuição de uma rebelião mínima pelo tempo em que você ficou permanentemente conectado. Tornou-se tão normal estar conectado, tão indispensável estar ligado, que cortar a linha pode parecer uma necessidade de partir, um primeiro passo descontrolado, o risco elementar da liberdade. É, ao mesmo tempo, e você também sente isso, uma regressão ao estado selvagem, um comportamento anti-social, uma solidão profunda. Você se pergunta sobre o que fazer.
           Talvez telefonar a um centro de ajuda especializado?

Publicado por: diegosbb | Agosto 7, 2008

Resmungar durante 10 minutos

            Há sempre uma razão. Expressamos mau humor e descontentamento quando somos agredidos. Alguém feriu você, alguma coisa lhe desagradou e você fica remoendo o que ocorreu, com ou sem razão (na sua opinião, com razão). Você reclama de um bom aborrecimento, de uma injustiça, e expressa seu ressentimento gritando, rangendo os dentes.
          O jogo consiste em fazer a mesma coisa, mas à toa, sem motivo, gratuitamente. Faça os gestos de cólera, mas sem senti-la verdadeiramente. Sozinho, em um quarto, comece a resmungar sem motivo.
           Faça todos os tipos de ruídos com a garganta. Contraia o diafragma. Rosne e lata, como um cachorro. Diga frases feitas com um tom violento. “Não é possível”,”basta!”, “quero ver se serão capazes de fazer isso!”, “isso é inevitável”, “ah, imbecis,vermes!cães imundos”!.
           Evite pensar na utilidade desse jogo. Faça tudo para não criar em você um movimento verdadeiro de mau humor. Contente-se em pronunciar as palavras. Fique calmo. Continue. Pense que será filmado e que precisa ter um ar de autenticidade. Continue resmungando. Chute ou dê socos, ou faça os dois, onde quiser. Grite que isso é odioso, desprezível, inadmissível. Vão pagar caro. Você os reduzirá a nada, fará com que peçam perdão, eles irão se arrepender. Faça também alguns ruídos fortes.
          Hum, e para finalizar, pare tudo. Beba um copo d´água. Abra a janela. Lembre-se que um ataque de raiva é apenas isso. Agora volte a relaxar…

Publicado por: diegosbb | Julho 12, 2008

Vida virtual

   Oi, qual seu e-mail? Você tem orkut? Me adiciona no msn também? Atualmente, existe alguém que não tenha pelo menos uma dessas ferramentas? É estranho, não conheço ninguém que não tenha e-mail ou msn. É como se existisse uma segunda vida, a vida on-line. Uma vida na qual o contato pelo toque não é mais necessário, o toque aqui é no teclado.
 

 Em meados dos anos 80, quando a internet começou a ganhar força, o precursor do jornalismo de gonzo se arriscou a dar sua opinião. De acordo com o escritor e jornalista Hunter S. Thompson, “inventaram a ferramenta perfeita para o Novo Idiota. Agora eles podem florescer, numa verdadeira terra de burrice e ganância. Podem infestar o planeta com tudo o que há de babaca e nojento que você puder imaginar, e todos eles vão parecer gente sensata. Agora, qualquer bundão banal, mentiroso, pode virar presidente dos Estados Unidos e ficar numa boa. Tudo quanto é desmiolado cabeça oca vai poder derramar os seus pensamentos podres nesse novo mecanismo, entortá-lo um grau fora do prumo e depois reenviar como uma forma de sabedoria. Você acha que a gente já chegou à Terra dos Mortos-Vivos? Não, Ralph. Estamos só começando!”, disse ele ao seu amigo Ralph Steadman.
E não é que Thompson estava certo. A internet amplia uma pluralidade de informações de tal maneira, que se tornou hoje incontrolável. Sim, sem hipocrisia, é uma ótima ferramenta para os jornalistas em busca de informações, mais dados e tem seu lado positivo também, você pode se aprofundar em determinados assuntos, ler jornais, revistas, ver fotos, enfim. Mas quando é usada para outros fins, pode ser sim, muito arriscada.
 

 Torna-se uma rotina viciosa, você vai trabalhar, chega, olha sua caixa de e-mail, responde alguns, deleta os outros. Quem tem orkut então, ixe maria, é uma doença.As pessoas esquecem da realidade. Tudo fica para trás quando se acessa o formidável império que começa com WWW. As pessoas se fascinam com essas novas ferramentas de interatividade que se esquecem da relação pessoal, ou melhor, da relação “ao vivo”. O telefone já não é mais tão usado, pois a internet tornou-se mais barata e pode-se utilizar fones em conversas reservadas. O jornal impresso também perde seu espaço para a web, vive-se uma crise devido ao mundo virtual.
 

 Os indivíduos se rendem aos relacionamentos amorosos por meio desses sites, conhecem pessoas, trocam mensagens, têm a possibilidade de falar ‘ao vivo’ – ver a pessoa por meio de uma webcam. Também há outro lado negativo, como vários casos de pedofilia, prostituição e outros crimes inclassificáveis. O mundo mudou, não é mais o mesmo, não há como omitir isso.
 

Quando as máquinas começaram a ser fabricadas, elas tinham apenas um intuito: apresentar uma vida melhor aos trabalhadores. Os famosos ‘microsofts’ passaram a existir desta forma, a idéia era fazer com que os funcionários produzissem mais em menos tempo. No entanto, hoje enxerga-se uma imensa farsa, foi uma propaganda enganosa que tornou a população “escrava da máquina”.
 

 Correta estão as palavras de Thompson. Arriscar-me-ia a falar/digitar que chegamos na “Terra dos Mortos-Vivos”, pois na internet até morto tem vida. É brincadeira, fulano?

Publicado por: diegosbb | Julho 10, 2008

Quero festa

Enfim sexta – falou Hilda para si, ao despertar pela manhã.
Havia sido uma semana conturbada. Dificuldade no trabalho, atividades da faculdade atrasadas, tudo praticamente ao mesmo tempo. Mas estas barreiras Hilda, com desenvoltura, os solucionou. O que não lhe saía dos pensamentos era o término do namoro de dois anos com o Fábio, fato ocorrido na terça-feira.Terminaram após mais uma discussão motivada pelo ciúme dele. Segundo ela, estava tudo acabado. Apesar de amá-lo e dos dois dias de muito choro pelos cantos, dizia: “Vida nova daqui para frente”. E nada melhor, segundo ela, do que cair na balada com as amigas.

Sábado à tarde ligou para suas as suas antigas companheiras de festa. Combinaram de jantar, juntas, em uma pizzaria, e depois irem a alguma festa. Hilda arrumou-se como há tempos não fazia. Colocou a sua melhor roupa, caprichou no cabelo, maquiou-se com todo o cuidado. Ficou perfeita! Chegou ao local esbanjando alegria, falando alto e distribuindo beijos e abraços, o que surpreendeu todas, pois Hilda era conhecida entre as amigas como mulher de atos discretos, charmosa. Uma das amigas ainda comentou: “O término com o Fábio rejuvenesceu-a, amiga! Parece estar mais feliz!” Hilda respondeu: “Capaz! É impressão sua”. E deu uma enorme gargalhada.
 
Comeram e beberam durante horas. Hilda era a que mais chamava atenção com sua beleza na mesa, pois não parava de pedir músicas ao artista que tocava no local. Solta, livre, desimpedida, assim aparentava estar. Até quis paquerar um rapaz da mesa próxima. Da pizzaria foram direto para a casa noturna. Chegando lá, as amigas tomaram a iniciativa de apresentá-la aos seus conhecidos. Com isso, ela tornou-se a atração da noite, tanto pelo charme, conversas e sorrisos, como pela beleza. Hilda sentia-se feliz, em um mundo mágico. Um “mundo” que há tempos não freqüentava.

Divertia-se demais. Dançava, paquerava, brincava, andava de um lado para outro da festa. Foi então que em uma dessas caminhadas, encontrou Fábio, escorado, a tomar um copo de uísque. Ela o ignorou. Passou e nem falou nada com o mesmo. Juntou-se às amigas e ficou, discretamente, a vê-lo de longe.
 
Existem pessoas que quando terminam um relacionamento (e como isso não bastasse), ainda sim, necessitam vingar-se do ex. Essa vingança, muitas vezes, não passa de uma tentativa para contestar as próprias dúvidas ou incertezas. Tipo: “Será que consigo viver sem ele?” Ou confirmar algo: “Viu como consigo ser feliz sem você?” E com Hilda não foi diferente.
Ela esperou Fábio olhar para ela, “retornou” esse olhar, e então, beijou um rapaz que dançava à sua frente. Beijava e observava Fábio. Fez isso com três caras diferentes durante a noite. O ciumento Fábio nada fez, apenas olhou resignado.

Fim de festa. Exausta e tonta, Hilda pega carona de suas amigas e chega em casa. Uma delas ainda comentou com ela: “Arrasou hoje hein, gata!” Ela apenas sorriu e abanou para as amigas, que se afastava. Entrou em casa silenciosamente, foi ao banheiro, tirou a roupa de festa e deitou-se na cama. E, com a cabeça no travesseiro, uma lágrima escorreu…
Agora sozinha no seu quarto, ela  sentia falta do ex e chorava a falta que Fábio lhe fazia…

Publicado por: diegosbb | Julho 5, 2008

Andar no escuro


De repente, a escuridão. Pode ser uma pane elétrica, um despertar súbito ou a preocupação em não acordar os que dormem…não importa a razão. Você anda no escuro, de preferência de forma inesperada. Não tm nenhum ponto de referencia dos seus trajetos, obstáculos e distancias. A experiência consiste em atravessar, usando apenas sua memória e na escuridão mais completa, um cômodo muito familiar, seu próprio quarto ou sua sala. O interessante é experimentar as rupturas da su certeza. Seu tato diz que você não sabe mais se orientar em um cenário habitual, que já foi percorrido milhares de vezes. Quantos passos do quarto até a porta? Não há nada entre eles ou você está se esquecendo de alguma coisa, uma mesa, um pacote no chão? Onde está o “braço” o sofá? A quina da cama? Esses lugares, antes tranqüilizadores, se enchem de pontos de interrogação.
Os gestos mais simples ficam repletos de riscos, chocam-se com uma brusca multidão de perplexidades e você não sabe mais exatamente como calcular. O que você pensava que sabia, na claridade, aqui revela-se incerto. Tudo é incerteza. Você estende o braço pensando que tocará em algo, que tocará na parede, que sentirá o batente da porta…nada. Continua tateando no vazio. Você foi invadido, de imediato, sem que possa ter se dado conta disso, pela estupidez da ignorância. O escuro o tornou idiota, deixou sua mente opaca, transtornou suas referencias. Você bate, de repente, no canto da cômoda. Não sabia que ela estava lá. Errou, não está onde pensava estar. O móvel surgiu do nada e bateu em você com força, na quina, na altura da coxa, naquele lugar onde dói.Putz…
A falta de luz atrapalha todos os seus cálculos, desorganiza seus contornos. Não dá para agir, a não ser em pequenos solavancos, movendo-se com minúsculas sacudidelas. Você tem poucas opções. Toda a realidade conhecida está no seu lugar, em ordem. Nada mudou, nem as coisas nem suas relações recíprocas, mas elas se tornaram incompreensíveis, distantes  vagamente ameaçadoras.
No escuro, o mundo deixou de ser “o mesmo” que era quando iluminado. A experiência consiste em entender que ele muda completamente de acordo com o que é visível ou não.
Isso que nós chamamos de “o mundo”, “ a realidade”, “a vida normal”, encontra-se em uma camada fina, facilmente perturbável.

Publicado por: diegosbb | Julho 5, 2008

Fazer o mundo durar vinte minutos

O passado está sempre nos rondando, nos mínimos detalhes. Enrosca-se  nos pensamentos, mesmo naqueles que parecem não se preocupar com ele. O futuro também está sempre por trás de nossos menores projetos e acompanha nossas mais ínfimas previsões.
O que aconteceria se tentássemos  – mesmo ilusoriamente – desfazer essas terríveis restrições? Imaginemos, dentro do possível, que o passado nunca aconteceu e que o futuro não existe. Vamos tentar acreditar que esse mundo, do jeito que é, dura apenas vinte minutos. Foi constituído de uma só vez, nesse exato momento, do modo como é incluindo nós mesmos. Há um minuto ele não existia. Tudo que o mundo contém no momento, tais como vestígios, ruínas antigas, bibliotecas, monumentos, arquivos, recordações recentes ou antigas, tudo isso acabou de surgir, tudo ao mesmo tempo. Os arquivos ainda estão lá, os testemunhos também, mas o passado do qual falam jamais existiu a não ser nesse momento.
 Esse mundo –infinito, diverso, múltiplo- tem duração limitada de aproximadamente 20 minutos. Depois disso ele desaparecerá totalmente e para sempre. Não haverá destruição gigantesca nem uma explosão cósmica. Não haverá chamas alucinadas nem imensos incêndios, não haverá uma extinção brusca. Será como o desfazer de uma bolha de sabão, como o súbito apagar de uma luz.
Instale-se nesse mundo de vinte minutos. Veja como é, de certo modo, idêntico ao nosso: tem os mesmos volumes e os mesmos céus. Nenhum objeto é diferente. As mesmas pessoas fazem as mesmas coisas. Mas repare, entretanto, que não é o mesmo universo. Esse mundo ao qual faltam a profundidade de um passado real e a perspectiva de um futuro imaginável pode parecer idêntico, mas é radicalmente diferente do nosso por causa desse limite temporal. Antes que esse universo efêmero desapareça completamente, você, que tem a ilusão de que outra realidade existiu e existirá, deve se esforçar para compreender o quanto o seu pensamento é diferente dessa existência medida em minutos. Quanto mais você sentir esse afastamento e essa distancia, mais poderá sentir a importância, para nós, do imemorial e do horizonte do futuro.
Ao se aproximar do final fatídico dos 20 minutos, você deverá sentir o terror surdo de que tudo irá, efetivamente, desaparecer.
É provável que não seja nada. Você poderá sair, no vigésimo primeiro minuto, desse medo sem motivo. Você se esforçará, então, para saborear o prazer de ver que o mundo continua.
Talvez você sinta, em seguida, uma espécie de gosto amargo, a decepção secreta porque nada foi destruído. Mau jogador…


Segundo o Departamento de Cefaléia da Academia Brasileira de Neurologia, cerca de 30 milhões de brasileiros sofrem com dor de cabeça. O consumo excessivo de analgésicos é uma das principais causas desse mal. A ABN alerta sobre o risco da automedicação e sobre a importância de um diagnóstico ideal, feito por especialistas.

O consumo de analgésicos não deve ultrapassar de dois a três dias por semana e pode ser indicada por um especialista. De acordo com a médica do Departamento de Cefaléia da ABN Patrícia Machado Peixoto, têm dores de cabeça que ficam mais fortes e freqüentes com o passar do tempo, evoluindo para enxaquecas crônicas.

“Uma grande causa é o uso do analgésico, que, em excesso, piora a dor de cabeça. O ideal é tratar o distúrbio com medicamentos que atuam no cérebro, fazendo com que haja uma estabilidade química. Há uma melhora de 60% dos casos, quando o paciente realiza esse tratamento”, explica.
Dentre a população, as mulheres são as que mais sofrem desse mal – 76%, contra 57% dos homens. A cefaléia não poupa nem os mais jovens. Cerca de 39% das crianças de até 6 anos já tiveram a cefaléia, e aos 15 anos, o número chega a 70%.

São mais de 300 tipos de cefaléias catalogados, segundo informações da ABN. Entretanto, a dor de cabeça pode disfarçar a presença de outras doenças, muitas vezes mais graves. Por isso, a academia alerta para a necessidade de consultar especialistas sobre o assunto.

“Nas cefaléias primárias não existem lesões cerebrais e sim um distúrbio químico em relação aos neurotransmissores –pequenos pedaços de proteína que carregam informações específicas. Normalmente, eles ficam armazenados em vesículas dentro da célula neuronal e são liberados quando há o estímulo nervoso. A dor de cabeça é uma doença neurológica e não têm sintomas. As dores secundárias, porém, são patologias em que o paciente pode ter desde um tumor, hemorragia ou traumatismo”, explica a médica do Departamento de Cefaléia da ABN.

Patricia Machado Peixoto ainda esclarece que para conseguir um diagnóstico mais preciso sobre as causas da dor de cabeça deve-se recorrer à cefaliatria, sub-especialidade da neurologia.

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